A segunda metade do século passado foi decisiva para o progresso da Vila de Conceição. O pequeno povoado tornou-se o principal ponto de encontro dos ricos proprietários da Serra que se reuniam habitualmente para discutir um pouco de política e muito de negócios, pois o ponto representava uma espécie de “bolsa comercial” da zona, visto ser ali que geralmente se combinavam grandes transações de empréstimos, e com mais freqüência, as liquidações sumárias das hipotecas feitas pela lei da usura, denominadas de “reto fechado”, pois o instrumento da hipoteca não satisfeito no dia do vencimento podia ser registrado como título de transmissão de propriedade, sem mais recursos.
Com o crescimento do povoado, necessitou-se elevar a categoria de Matriz a Capela de Nossa Senhora da Conceição. Neste sentido foi apresentado a Assembléia Provincial um Projeto de Lei (no. 17) que depois de aprovado transformou-se na seguinte Lei.
LEI No. 1.580 de 18 de setembro de 1873
O Comendador Joaquim da Cunha Freire, 1o. vice-presidente da Província do Ceará.
Faço saber a todos seus habitantes que a Assembléia Legislativa Provincial decretou e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o. – Fica elevada a categoria de Matriz a Capela de Nossa Senhora da Conceição, no termo de Baturité, com a mesma invocação.
Art. 2o. – Os limites da nova Freguesia serão os mesmos dos distritos de Conceição, Pendência (hoje Pacoti) e Mulungu, exceto do lado que se estende para a Freguesia de Canindé, para onde deverá seguir até o pé da Serra.
Art. 3o. Revogam-se as disposições em contrário. (12).
A nova Freguesia foi canonizada por Dom Luiz Antônio dos Santos, primeiro Bispo da Província do Ceará, no dia 21 de novembro de 1873, nesta ocasião foi empossado o primeiro vigário, Pe. Joaquim Romualdo de Holanda.
A capela Matriz de Nossa Senhora da Conceição embora já canonizada e com a categoria de sede, ainda não estava completamente construída e sempre que podia Pe. Romualdo foi transferido para a Freguesia de Redenção, e para substituí-lo veio o Pe. Anastácio de Albuquerque Braga; este juntamente com a liderança firme de Ana Bilhar e do devoto Pe. José Leorne Menescal, conseguiram junto ao Governo Monárquico e demais lideranças locais, recursos para a conclusão da capela. Dezenas de flagelados vitimas da seca de 1877-80, trabalharam na construção final da Capela de N. S. da Conceição. (13)
Em 07.12.1877, Dom Pedro II liberou verbas para o Ceará, como socorro público, na administração do Des. Estelita. Em Conceição foi construído o consistório da matriz em Pernambuquinho, o Cemitério.
Conceição tem agora sua época áurea da educação. Em 1889, Ana Bilhar fundou o colégio Nossa Senhora de Lourdes (internato e externato), destinado exclusivamente ao sexo feminino. Em 1892, o Professor Anacleto de Queiroz transfere para Conceição da Serra o internato do Colégio Cearense, destinado exclusivamente ao sexo masculino. Em decorrência do surgimento e desenvolvimento dessas instituições, dirigiu-se para a Serra, uma elite intelectual. Aqui vinham: Agapito dos Santos, Pe. Leorne Menescal, Prof. Joaquim Nogueira, Pe. Frota, Manuel Sátiro, Godofredo Maciel, Zacarias Gondim, Cândido Pamplona, Maria Theberg, o filosofo Farias Brito e muitos outros intelectuais da época.
Como prova de prestigio da região e o seu reflexo da vida política da Província, o Príncipe Imperial, Conde D’Eu, esposo da Princesa Isabel, em sua visita ao Nordeste, em 1889, veio até Conceição, onde visitou a residência do Cel. Epifânio Ferreira Lima, em Pacoti, no sítio Pau D’Alho, uma das mais belas mansões da serra.
A viagem, até Baturité foi feita em carro especial da então Estrada de Ferro de Baturité, e daí até o sítio Brejo, já no alto da Serra, em Cabriolé, pois a estrada fora recentemente construída, como parte das obras de socorro aos flagelados da seca dos três oito, permitindo francamente a utilização daquele meio de transporte. No sítio Brejo, aguardavam o imperial visitante, luzida comitiva cavalgando belos corcéis, bem como os cavalos em que deveria prosseguir a viagem, juntamente com seus acompanhantes. De Conceição partiu outra comitiva ao encontro do Conde. Ao meio do caminho um dos componentes lançou a idéia de disputarem a honra de ser o primeiro a saudar o nobre visitante. Participavam da Comitiva o Capitão Temóteo Ferreira Lima, homem vibrátil, temperamental, tido e havido como melhor cavaleiro da serra. Montava ele uma burra, animal de que se utilizava preferentemente para a sua montaria. O trecho da estrada que demanda a cidade, partindo do sítio Brejo, por ser muito íngreme, foi dividido em socalcos, em ziguezague a fim de tornar menos estafante o acesso ao cimo de escarpa.
Quando a caravana que precedia da cidade atingiu os primeiros socalcos, avistou a que vinha subindo, destacou-se à frente, visivelmente a figura do Conde. Todos se apressaram a tomar a dianteira, visando cada um a honra de ser o primeiro a cumprimentá-lo. O Capitão Temóteo, não logrando avançar também, impedido que foi pelos outros cavaleiros, que tolhiam os passos de sua montaria, ao notar que o Conde se aproximava do socalco que ficava logo abaixo do em que se encontrava, esporeou a burra, forçando-a a saltar bem a sua frente, façanha que lhe conferiu a primazia de ser o primeiro a saúda-lo, o que fez com entusiasmo, de chapéu à mão. O Conde D’Eu, surpreendido com o que via, tomado de admiração, retribuiu a saudação e virando-se para uma das pessoas que o acompanhavam mais de parte, disse: “este é um dos meus”… Após o banquete, Sua Alteza retornou a Conceição, onde visitou o vice-cônsul da França, Isaías Boris, no seu sítio Nancy, após dirigiu-se ao sítio Cafundó, da família Caracas, onde pernoitou. Conta-se que foi sugestão sua a mudança de denominação de Cafundó para Venezuela.
Naqueles recuados tempos desconhecia-se o uso de banheiro em casa, a não se os rudimentares “banhos de cuia”, usados excepcionalmente. Utilizavam-se, comumente, o açude, o riacho ou quedas d’água, previdos de tosco abrigo vedado com tapume de galhos secos de palmeiras.
Pela manhã do dia em que deveria retornar à Capital, sua Alteza manifestou desejo de tomar banho. O fato gerou certo embaraço, mas a dona da casa, D. Ana Felícia Caracas, mulher inteligente e de espírito prático, resolveu o impasse do seguinte modo: em um quarto mais situado para os fundos da casa, um preto escravo liberto, trepado em um caixão e servindo-se de ancoretas (pequenos barris) improvisou o banheiro que o augusto hóspede se utilizou para reconfortante banho. (14)
A Senhora Ana Felícia Caracas, do Sítio Cafundó, hoje Venezuela, teve três filhos, José, Luís e Francisco Pacífico Caracas. Valeu-se da proteção de N.S. de Lourdes para conseguir a educação deles, prometendo erigir uma capela com esta invocação. Conseguida como de fato foi a sua promessa, deu logo início aos trabalhos, precisamente no dia 02.02.1887, com o assentamento da primeira pedra. Após 06 (seis) anos estava concluída a Igrejinha da Gruta, em 15/10/1892, efetuou-se a benção solene da Capela, com a presença do bispo Joaquim José Vieira, clero e fiéis, na Igreja da Matriz Nossa Senhora da Conceição foi procedida à benção da imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que em seguida, foi conduzida para a nova capela, onde foi dada a benção da Igreja. No dia seguinte. O bispo D. Joaquim, auxiliado por sacerdotes, realizaram a sagração do altar da capelinha, conforme as prescrições do Pontifical Romano.
Aos 23/04/1898, na casa de D. Ana Felícia, perante o tabelião Francisco Ponte, de Fortaleza e de várias testemunhas; D. Ana Felícia fez a doação da Capela e do terreno de fundos da mesma (desmembrada da Fazenda Macapá) e mais 25 palmos de terreno de cada lado da mesma alameda, à Diocese. Essa doação só seria totalmente consolidada após sua morte, sendo que seus filhos administrariam esses bens, aplicando exclusivamente os seus rendimentos à conservação e asseio da igreja e aos atos do culto religioso nela celebrados.
Em 01/02/1934 a capela e o referido patrimônio passaram a ser administrados pelos padres Capuchinhos, representados por Frei Silvério de Milão uma vez que os herdeiros de D. Ana Felícia Caracas, renunciaram a administração.
Ali os capuchinhos construíram um prédio destinado ao curso suplementar gratuito dos moços que freqüentavam a Escola Apostólica da ordem dos Padres Capuchinhos da Missão do Maranhão.
Nos fins do ano de 1938, Frei Onório de Origgio, remodelou a primitiva gruta, que era pequenina e de pedra, substituindo por uma grande e espaçosa , confeccionada de flandres.
Frei Cosme de Borno, durante o ano de 1947 e 1948, substituiu a gruta feita por Frei Onório, por uma artística gruta de pedras recamadas de mica, dotou a igreja de duas capelas laterais, condecorou-a de pinturas e de artísticos painéis. (15).
(14) Antônio Patrício Ribeiro, RIC 86, págs 278-279
(15) Livro de Tombo do Convento da Gruta e Lourdes Serrana – Francisco Mariano de Aquiraz, janeiro de 1958.
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