POVOAMENTO E FORMAÇÃO POLÍTICA


As informações que chegavam aos portugueses sobre a Serra eram excelentes: Abundancia de frutas silvestres, água corrente perene, solo fértil e principalmente um clima ameno, parecido com o europeu. Os índios do litoral tinham por aquela serra grande respeito e admiração. Chegavam a contar lendas sobre sua conquista e povoamento, que segundo eles teriam sido feitos por um bravo guerreiro vindo das bandas do Jaguaribe. (1).

Os primeiros portugueses que chegaram ao sopé da serra eram provenientes das regiões de Beberibe e Aquiraz, que subiram pelo vales dos rios, principalmente o Choró. Os Jesuítas já haviam alcançado a serra por volta de 1655, quando formaram uma missão para catequizar os índios, principalmente as tribos dos Tapuias ou Paiacus. Essa missão se instalou no lugar chamado Comum, hoje Tijuca, onde o ouvidor achou inconveniente erigir uma Vila devido a sinuosidade de terreno e a estreiteza do platô, sendo transferida para o lugar onde hoje se localiza a cidade de Baturité. (2).

Esses índios provavelmente provenientes do Jaguaribe e que ali estavam instalados, viviam de um modo muito primitivo, sem conhecimento dos metais, fabricavam suas armas e utensílios domésticos com pedras pacientemente modeladas. Seu grupo biológico se caracterizava pela robustez e grande estatura de seus homens, com ossos grossos e fortes, cabeça grande e espaça, cor atrigueirada, cabelos pretos pendentes sobre o pescoço, cortado igualmente acima das orelhas.
Além dos Paiacus viviam dispersados sobre a serra os seguintes grupos indígenas: Canindés, Jaguaribaras e Apuiarés.
As aquisições de terra nas baixas imediações da serra foram feitas por sesmarias doadas aos pioneiros que subiam nos vales dos rios, em um verdadeiro movimento de bandeirismo, porém nenhuma destas entradas aventurava-se as abas da Serra, ficando tão somente restrita aos pés da serra.

As partes mais elevadas devido às dificuldades que ofereciam à conquista formavam verdadeiros esconderijos de índios fugitivos, cobertos de matas espessas formando uma frondosa selva de Pau D’Arco, Jacarandá, Maçaranduba, Algelis, Pirauas, e inúmeras quantidades de arbustos e trepadeiras. Devido a sua ferocidade e a resistência dos colonizadores, os Paiacus foram os mais perseguidos. Em 1713, descontentes com a perda de suas terras, aliaram-se aos Jaguaribaras e saquearam Aquiraz, a partir de então foram violentamente perseguidos. A ordem Real era matar todos os índios homens que pegassem em armas, e grande parte da população indígena foi morta sem dó.

Na serra propriamente dita, correspondentes as atuais localidades de Mulungu, Guaramiranga e Pacoti, foi muito demorada a chegada do colono branco. Foi em Conceição (atual Guaramiranga) que se deu a primeira ocupação com a instalação do Sítio Macapá pelo Capitão João Rodrigues de Freitas no século XVIII, nos anos finais dos setecentos. (3)
As condições arriscadas de penetração, caminhos inadequados, escorregadios e ondulados, existência de índios rebeldes desconfiados da amizade dos brancos, fizeram com que se considerasse as terras serranas sem préstimo e sem valor. Este pensamento perdurou por muito tempo só começando a ser modificado com as crises climáticas que castigaram o Ceará nos anos de 1777-1778 e 1790-1793 (conhecidas como seca dos três setes e seca grande, respectivamente). Esta ultima foi tão terrível e rigorosa, que durou quatro anos, destruiu e matou quase todo o gado do sertão. (4)
Nessa época os sertanejos temerosos das desgraças da fome, da sede e da morte do gado, procuraram aproximar-se das serras, garantindo assim um local para refrigerar os rebanhos e para saciar sua própria sede.
Com a perseguição sofrida, os selvagens foram por fim dominados e reunidos no pé da serra, na aldeia de índios de Monte-Mor, o Novo da América (Hoje Baturité). Livre dos índios passou a Serra a ser procurada pela população sertaneja durante os calamitosos anos de seca.

Assim os fazendeiros do sertão, reunindo dinheiro e recursos que podiam dispor, partiam para a serra com a família e os escravos, levando apenas os animais necessários à sua condução e algumas vacas leiteiras. Dirigiam-se aos lotes de terras devolutas que tiveram de comprar aos primeiros exploradores que vendo a oportunidade de um bom negócio, haviam-no precedidos, abrindo picadas na mata virgem, assinalando a posse que faziam junto às autoridades fiscais.
O grande problema destas viagens em direção a Serra era o transporte dos pais, muito idosos, que muito sofriam com a exposição ao sol e aos insetos de todas as espécies.
Um exemplo típico destas expedições vindas do sertão é o da família de Ignácio Lopes Barreira, que chegou a serra por volta de 1820, e se estabeleceu da seguinte forma:
- Cel. Antônio Francisco de Queiroz Jucá (seu filho), comprou o sítio Macapá.
- José de Holanda Filho (casado com sua filha Francisca Barreira comprou o sítio Abreu. E seus filhos compraram o Sítio Arábia (José Raimundo (Zuza); Balthazar (Dada), o Sítio Uruguaiana; Pedro, o Sítio São Pedro; e Clementino o Sítio Monte-Flor.
Nos anos de mil e oitocentos (1800) as secas continuaram castigando os sertões cearences e milhares de refugiados dirigiram-se para as serra e para a capital. O governo monárquico manda iniciar a construção da estrada de ferro de Baturité, tentando assim evitar o êxodo da população.
O ponto decisivo para a conquista da área serrana se deu pela excelente adaptação do café em suas terras úmidas e férteis, sendo introduzido por Antônio Pereira de Queiroz Sobrinho, vindos das plagas do Cariri, descendente de Pernambuco.(5).
A partir de então ocorreu uma verdadeira corrida pela aquisição das terras serranas, e para lá se deslocaram muitos dos ricos fazendeiros e seus descendentes, principalmente dos sertões de Quixadá e Canindé. Subiram a Serra em busca de fortuna as famílias Queiroz, Holanda, Pimentel, Caracas, entre tantas outras.
Em pouco tempo a área serrana apresentava notável influencia no cenário estadual, produzindo frutas e legumes para a capital, cana de açúcar (transformada em rapadura) para os sertões arredores, além do algodão arbóreo cultivado nos pés da serra e principalmente café, que já em 1846, juntamente com o de Maranguape, era exportado em toneladas do porto de Fortaleza para a Europa. (6).

Estudiosos modernos reconhecem a vital importância da Serra de Guaramiranga no desenvolvimento histórico do Ceará, a ponto de afirmarem: “Uma característica do litoral cearense que impediu que sua faixa costeira permanecesse inteiramente deserta foram as serras que em maciços isolados aliaram-se sucessivamente ao longo da costa (...) destacando por isso estas elevações como oásis de terras férteis e cultiváveis em meio da aridez que o cercam. Tais serras atraíram e fixaram algum povoado que procura sua saída pelo mar próximo (...) Fortaleza que será a capital da capitania graças a sua posição central (...) e sobretudo a fertilidade da Serra de Guaramiranga, que forma a sua hiterlândia. (7).
Em função do café, paulatinamente todas as terras serranas haviam sido ocupadas. Era grande o deslocamento populacional para a região em conseqüência da enorme oferta de trabalho. A mão de obra era composta principalmente de mestiços, de índios nativos, de negros recém libertos e de brancos sertanejos refugiados das desgraças das secas, que viviam dependentes dos ricos donos de terras, eram conhecidos como moradores, seu sustento provinha dos trabalhos que prestavam aos donos.

No alto da serra, Vitoriano Correia Vieira comprou o sítio Conceição do posseiro Francisco Félix. Como era muito religioso mandou construir uma pequena capela, e em 1845 doou uma grande faixa de terra que ia do sítio Macapá ao Sítio Munguaípe, entre os sítios de Guaramiranga e Bom Sucesso. Anos mais tarde, o vigário de Baturité autorizou o administrador do terreno, Cap. José Pacífico da Costa Caracas, a arrendar a razão de 20 réis o palmo “na rua” para a construção de casas, e a 10 réis, o palmo para a agricultura. Esse Sistema provocou embaraços Ao Vigário, que vez por outra, publicava edital reclamando os rendimentos atrasados e o não cumprimento das clausulas do contrato. (8)
Com a construção da igreja e do cemitério, o pequeno povoado em franca prosperidade, passou a ser conhecido como povoado de Conceição, e em poucos anos era uma verdadeira vila.

Em 1859, chegou em Fortaleza uma comissão cientifica de exploração do Império Monárquico, chefiada por Guilherme Capanema (Geólogo), Francisco Freire Alemão (Botânico) e Gonçalves Dias (Etnólogo). Essa comissão iria explorar e descrever a província do Ceará. No dia 06 de dezembro de 1861, a comissão chegou ao povoado de Conceição da Serra onde passou três dias em reconhecimento, e hospedou-se no Sítio Guaramiranga. De volta ao Rio de Janeiro, eles escreveram sobre o comércio da capital restrito às serras de Guaramiranga e Uruburetama, sobre a crescente importância do povoado de Conceição em conseqüência da implantação da cultura do café e da cana de açúcar em suas vizinhanças.
Freire alemão não escondeu seu encanto pela localidade e afirmou: “Ar Benigno, solo fértil e banhado por arroios de água perene. Soberbas matas formam seu manto de verdura, já hoje em grande parte substituída por lavras de café, que é de excelente qualidade” (9).

A respeito do clima da serra, repetia o Cel. Batista um conceito que ouvira do sábio Dr. Freire Alemão, membro da Comissão Cientifica que se hospedara em sua casa:
Acabando de subir o morro da Gameleira, Freire Alemão passou o lenço no rosto, onde porejavam gotículas de suor, disse extasiado:
- Que clima admirável! Que ar leve e puro! Aqui não se cansa!
O Cel. Batista, curioso por todas as noções científicas que passavam ao seu alcance, provocou uma explicação que veio pronta:
- Não se vê com que facilidade se transpira aqui?
Quando o ar é úmido e pesado, a transpiração torna-se difícil; o sangue não se desembaraça facilmente do calor e dos resíduos orgânicos resultantes da oxidação ou combustão provocada pelo trabalho muscular, de modo que o organismo se aquece e se intoxica, do que provém o cansaço. Aqui o suor é fácil, o corpo se refresca e se expurga prontamente, dando a ausência da fadiga, é por isso que os povos dos climas tropicais são preguiçosos, por uma defesa natural do organismo, contra o cansaço molesto. (10)

Em 1864, o Presidente da Província, Dr. Lafayette Rodrigues Pereira, em visita à progressista região, hospedou-se no Sítio Guaramiranga. Desejou agraciar o título de Barão de Guaramiranga ao Cel. Batista, que recusou em troca de sua nomeação para Tenente-Coronel da Guarda Nacional. Isto porque a Guarda Nacional, criada em 1831, estabeleceu uma hierarquia em que a patente de Coronel correspondia a um comando municipal ou regional que dependia do prestígio econômico e social de seu titular, que raramente deixava de figurar entre os proprietários rurais.

O Coronel ditava o rumo do relacionamento social e político, explorando no trabalho, apadrinhando, protegendo ao mesmo tempo em que oprimia e dominava aqueles que gravitavam em torno de sua propriedade e de sua pessoa.

(1) José de Alencar, Iracema, págs. 61-73.
(2) Carlos Studart Filho, Os Aborígines do Ceará, pág. 140.
(3) Vinicius de Barros Leal, História de Baturité E.C.
(4) Thomaz Pompeu, O Ceará no começo do século, pág.255.
(5) Waldery Uchoa, Anuário do Ceará, 1o. volume, 1953/1954, pág. 182.
(6) Flávio de C. Prata, Principais Culturas do Nordeste, pág. 174.
(7) Caio Prado Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo, pág.46
(8) Vinicius Barros Leal, A Verdade no. 2.973 de 26.10.1986.
(9) Renato Braga, História da Comissão Científica de Exploração.
(10) Esperidião de Queiroz Lima, Antiga Família do Sertão, Pág.252.